Código: 955

Tendo o sol por testemunha

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Alguns historiadores observaram que, na viragem dos setecentos para os oitocentos, alterou-se o caráter das migrações portuguesas através do Atlântico. Não eram mais agricultores que viajavam com a intenção de continuar vivendo desta ocupação, pois começavam a ser superados pela demanda do comércio, atraindo novos atores. O livro de André Cavazzani explora de maneira muito feliz os resultados dessa conjuntura de transição, que marca particularmente a história da imigração lusa no Brasil.

            Num trabalho primoroso, manejando de maneira incomum a documentação, e com texto agradável, seguem-se os capítulos que tratam de portugueses que se instalaram em Paranaguá, vila portuária no litoral paranaense. Como explicita o autor, os objetivos gerais da pesquisa que resultou neste livro “corresponderam a basicamente a entender como os reinóis radicados em Paranaguá, na virada do século XVIII para o XIX, viveram ou sobreviveram; como atuaram, como se relacionaram, num espaço que, mesmo periférico, abrigou uma população que foi em tudo similar à do restante do Brasil – variada em origem, dividida pela escravidão e matizada em cores e hierarquias”.

 

            No período, os imigrantes não desmereceram suas origens rurais, investindo em pequenas ou grandes lavouras. Diversos foram (também) pescadores, proprietários ou não de suas embarcações. Alguns foram artesãos, outros desenvolveram atividades ligadas a ocupações que chamaríamos, hoje, de “profissões liberais” – enfim, num colorido heterogêneo de inúmeras trajetórias. Camadas diferentes e (ou) complementares, muitas vezes reunidas em “empresas” familiares, em conformidade com as características da sociedade anfitriã, hierárquica e escravista. No contexto dessa diversidade, o trabalho de Cavazzani destaca os portugueses que se dedicaram aos pequenos e grandes tratos. Exemplarmente, e introduzindo a conclusão, todo um capítulo é dedicado a Antonio Vieira dos Santos, reinol que, como tantos, tornou-se negociante. Entretanto, com uma biografia muito original, também um personagem da historiografia paranaense.

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