Código: 406

JUÓ BANANÉRE, IRRISOR IRRISÓRIO

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Referência: 978-85-7751-04


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BAGAÇO DO CAPITAL

Quem é e como é esse tal de Juó Bananére? Um narrador e personagem – quem sabe um heterônimo – ou simples pseudônimo de um escritor ocultado que fala por outro e por si mesmo? Qual seria, afinal, o estatuto da representação dessa espécie de persona que, ao que tudo indica, ganhou autonomia, quase plena, frente a seu inventor?

Parece que Juó Bananére tornou-se ele mesmo um “sujeito literário”, ou um “ser da escrita”, pois inventado por Alexandre Marcondes Machado acabou por reinventar seu inventor como escritor. Talvez se possa dizer que na escritura cômica e macarrônica brasileira existe Juó Bananére e não Alexandre Marcondes Machado.

Fenômeno semelhante acontece com o Barão de Itararé e seu inventor Aparício Torelly, além de alguns outros, que trabalham com o gênero cômico popular. Isso indica que o cômico popular – que tem origem nas festas coletivas, nas práticas de expropriação, ocultação e hibridização de materiais, nas combinações disparatadas e arbitrárias – quando se realiza na escrita contamina-a com essa “lógica” diversa e a transforma em “outra coisa”, que não o padrão erudito e seu aparato de poder.

Juó Bananére irrisor, irrisório de Carlos Eduardo Schmidt Capela, com seu acuradíssimo estudo inicial e a magnífica antologia que o segue, dá conta das dimensões problemáticas, e também criativas e inventivas, da escritura do principal cômico-macarrônico brasileiro, em quantidade e qualidade.

Colaborando intensamente em O Pirralho, a revista paulistana criada por Oswald de Andrade e amigos, juntando charges e caricaturas de Voltolino, desde 1911, continua até 1917 e nos anos seguintes em outras publicações humorísticas de teor semelhante (O Queixoso, A Vespa, A Manha, esta do Barão de Itararé) só findando com a morte de Alexandre Marcondes Machado, em 1933.

A força humorística e satírica do cômico macarrônico institui sua autonomia frente ao cânone erudito e os padrões de leitura deste não servem e não dão conta desse corpo estranho no mundo da escrita. Isso lembra os problemas de leitura da obra do Marquês de Sade (este por diverso motivo).

Assim, Juó Bananére, sendo moderno pelas inúmeras implicações sociais e de linguagem de sua escrita, não pode ser visto como “precursor” do modernismo erudito da Semana de 1922. O estatuto de sua representação é bem outro. E, falando com radicalidade, seu italiano imigrante pobre em São Paulo – e os ítalo-paulistas – aparece como uma espécie viva e monstruosa de bagaço social e cultural. E essa espécie de bagaço fala e escreve pela voz dos despossuídos do país, o qual nunca terá prestígio mas se impõe como uma afronta, uma escrita afrontosa, já que não é bagaço de si próprio, senão dos poderes do Capital.

Valentim Facioli

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