Código: 402

ODES DO DESESPERO

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Referência: 978-85-7751-05


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DE ODES E ENIGMAS
Machado de Assis publicou nas Falenas (1870) um longo poema intitulado “Uma ode de Anacreonte” (quadro antigo) no qual realiza uma retomada paródica e irônica, que conclui, contudo, com um tom desencantado, senão melancólico:
não vos maldigo, não; / eu não maldigo o mar / quando a nave soçobra; / o erro é confiar.

São versos alexandrinos (de 12 sílabas) construídos rigorosamente, com diálogos e muita experimentação.

Por sua vez, Hilda Hilst, no século xx publica primeiro sua Ode fragmentária (1961) e mais tarde Da morte: odes mínimas (1980). A retomada da ode pela magnífica escritora jauense se impõe com um discurso também experimental, de versos livres, um laboratório poético intelectual e místico, e a ode quase se transforma em elegia. A experiência de vida tornada aguda consciência da finitude e o tempo esvaziado, mal sobrevivendo na memória fantasmagórica, espécie de espaço cósmico sem estrelas, sem luz e sem calor. Território sombrio da morte, prevista e anunciada, feito expectativa.

Estas Odes do desespero, de Leila Echaime (poeta de vasta e variada obra), estão no fio da tradição, impregnadas também pelo tom elegíaco e por um impulso vital de busca do que foi perdido no tempo escoado para algum lugar que a existência não revela qual é. Há um enigma subjacente nessas odes, que caberá ao leitor enfrentar: aí estão o amor e a morte, e o desespero da busca, tudo pelo filtro feminino, através do olhar da mulher.

Parece que essas Odes guardam certas ressonâncias camonianas (e neoplatônicas), uma vez que as perdas da vida vivida ameaçam a linguagem, a persistência da poesia e juntamente as identidades que a memória luta por preservar e revelar, mas soçobra como a nave nos mares do tempo e dos temporais:
E como é difícil encontrar / A quem se deu o seu amar

A quem se perdeu sem achar.Na estrutura das formas poéticas as odes são livres como poemas do gosto modernista. Rimas sem esforço e sem procura, toantes e consoantes, sempre decorrentes do fluxo do pensamento, pois são poemas sobretudo pensantes. E obsessivos na busca, talvez metafísica, do sentido: da morte, do sonho, do amor, do desespero, da experiência e de saber para onde foi todo o vivido. Estaria tudo no íntimo, na cidade, nas ruas?

Num recanto obscuro de cada poema, contudo, permanecem os escombros (as ruínas?) acumulados dos dias do sol posto e da elegia do impulso vital, que, entretanto, falam pela poesia.

Valentim Facioli

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