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Selvagens bebedeiras

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Referência: 978-85-7939-068-5


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Selvagens bebedeiras

Álcool, Embriaguez e Contatos Culturais no Brasil Colonial

(Séculos XVI - XVII)

O livro explora o contato entre os sistemas etílicos postos em cena nos séculos xvi e xvii. De um lado, o sistema indígena das cauinagens – a bebida-alimento fermentada à base da mandioca – cujas características e significados culturais são analisados à exaustão. De outro lado, o sistema etílico do colonizador português – o do vinho, também alimento! – cujas origens e significados na história ocidental o autor apresenta em minúcias. Em meio a descrições, inclusive técnicas, sobre o fabrico das bebidas e os cerimoniais acoplados ao consumo delas, João Fernandes enfrenta diversos tabus – de que o assunto, em si mesmo, está cheio. Por exemplo, destaca o papel crucial das mulheres no sistema do cauim, relativizando o lugar secundário que a etnologia dedicou à condição feminina no mundo tupinambá. Outro exemplo: as peculiariades de cada subsistema etílico europeu – o dos vinhos, o das cervejas e o dos destilados, tudo assim mesmo, no plural, porque, conforme a sociedade ou o tempo, o significado das bebidas variava, sem contar que o tipo de cada uma das bebidas jogava papel decisivo no campo das relações sociais e representações ligadas à embriaguez.

Voltando ao período colonial, Fernandes nos mostra a vitalidade cultural do cauim, mesmo depois de iniciada a colonização, embora a cauinagem tenha sofrido ataques frontais – quiçá fatais – sobretudo dos missionários. É possível dizer que a cauinagem foi dos poucos elementos culturais indígenas (a exemplo da antropofagia) com os quais a colonização/missionação se recusou a negociar.

O sistema português do vinho, por sua vez, foi mais longevo, apesar do clima abrasador do trópico, porém limitado ao enclave dos poucos reinóis que viviam na terra. O fato é que nem os portugueses tentaram impor o vinho aos índios, nem esses meteram seu cauim goela abaixo dos colonizadores. O contraste silencioso entre o cauim e o vinho permite alcançar, de um lado, a trajetória agonizante da sociedade tupinambá e, de outro, as inadaptabilidades do português ao desterro colonial – apesar do que disse Gilberto Freyre e conforme sublinhou, em contrário, Sérgio Buarque de Holanda – dois grandes mestres.

Nessa luta do vinho com o cauim – que, na verdade, não chegou a ser bem uma luta… – quem saiu ganhando foi a aguardente de cana – a cachaça – bebida mestiça e colonial. Melhor dizendo: bebida colonial e escravista, pois a jeribita foi moeda valiosa no tráfico de escravos africanos a partir do século xvii. Não por acaso, a história da cachaça no Brasil começa no momento em que a escravidão africana passou a prevalecer nas lavouras do litoral. Da embriaguez ao sistema colonial: o livro transita com desenvoltura entre a micro-análise e as explicações globais, alterna escalas e observação, demonstra, em suma, que a história não é feita de compartimentos estanques. Nem de determinismos estéreis.

Sobre o autor: João Azevedo Fernandes é historiador, com mestrado em Antropologia (ufpe) e doutorado em História (uff). É professor da ufpb. Escreveu De Cunhã a Mameluca: a mulher tupinambá e o nascimento do Brasil (2003) e A Espuma Divina: sobriedade e embriaguez na Europa Antiga e Medieval (2010), além de artigos sobre a história indígena e das bebidas alcoólicas. No momento estuda os relatos e descrições dos viajantes estrangeiros acerca dos hábitos etílicos dos brasileiros.

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